Laptops e Educação de Qualidade no Brasil

Jul 05, 2011 No Comments by

A mais nova onda em tecnologias para as escolas é a ideia de uma laptop/tablet por criança ou, como usualmente tem se chamado, 1:1 (um pra um). O conceito é relativamente simples: cada criança e professor de uma escola recebe um laptop de baixo custo, o qual mantém consigo todo o tempo, inclusive levando-o para casa.

Essa ideia já esta sendo adotada em alguns países do mundo, como no Uruguai, aonde 100% das crianças do ensino fundamental possuem laptops. No Brasil o projeto ainda esta engatinhando, pois em um país com cerca de 50 milhões de alunos existem pouco menos de 200 mil laptops distribuídos nas escolas, muitas vezes ainda utilizados como laboratórios de informática móveis.

Entretanto, toda vez que se fala de um laptop por criança, a pergunta que a maioria das pessoas faz é porquê. Por que investir tanto dinheiro em uma iniciativa como essa quando existem tantas outras necessidades nas escolas públicas brasileiras?

Esses recursos não seriam melhor investidos no salário dos professores, na Infra-estrutura das escolas ou na merenda escolar? Mesmo laboratórios de informática não seriam uma opção mais realista?

A resposta não é obvia, mas investir em laptop é uma das poucas ações possíveis que pode gerar impacto na qualidade da educação em um curto espaço de tempo. O investimento em iniciativas como o aumento do salário dos professores e melhorias nas infra-estrutura das escolas, apesar de extremamente necessários, são ações de longo prazo. Por exemplo, quando um governo faz um aumento significativo no salário dos professores ele tem como objetivo atrair profissionais mais qualificados para a área. Apesar de ser uma motivação para os professores já existentes, o aumento salarial não torna necessariamente professores mal qualificados ou desinteressados pela profissão em profissionais significativamente melhores.

Apesar de um plano de longo prazo que valorize o professor e a escola seja fundamental para a educação no Brasil, também precisamos de ações que tenham um impacto imediato no aprendizado de nossas crianças. Não podemos esperar mais uma geração para formarmos cidadãos e profissionais melhores em nossas escolas. Investir em tecnologias que permitam as crianças desenvolverem-se apesar dos outros desafios da educação formal é um desses caminhos possíveis.

Pesquisas há muito tempo já demonstraram que o uso de computadores pode ter um impacto significativo no desenvolvimento cognitivo das crianças. Elas sentem-se mais engajadas em sua aprendizagem na medida em que possuem um papel mais ativo nas atividades de sala de aula, tem acesso a diversas fontes de consulta, utilizam a língua escrita com muito mais autoria em contextos de comunicação e podem expressar-se com novos tipos e linguagem como vídeo e áudio. Também tem acesso a ferramentas que dão contexto ao ensino de matemática, usualmente tão sem sentido e distante da vida dos alunos.

Por isso tanto se investiu em laboratórios de informática em todos os países do mundo. Entretanto, laboratórios de informática foram uma tentativa frustrada de inserir computadores na educação que pertence ao século passado. Um esforço com objetivos nobres, mas datado devido aos altos custos da tecnologia nas décadas de 1980 e 1990. Os computadores sempre foram muito poucos para muitas crianças. Com cada aluno tendo acesso ao computador apenas alguns minutos por semana, os laboratórios usualmente falharam em oferecer para as crianças nas escolas aquilo que tanto entusiasmou os teóricos da educação nas universidades.

Apesar de nunca ter mudado a escola como se desejava, os laboratório de informática ensinaram muitas lições importantes sobre as limitações desse tipo de programa. Uma delas é sobre a dificuldade em capacitar os professores e encorajar-los a mudar sua prática dentro da sala de aula para incluir a tecnologia. Indiferente da quantidade de recursos investidos em cursos de capacitação, muitos professores nunca conseguiram introduzir o uso de computadores em suas salas de aula. Mesmo aqueles mais entusiasmados que conseguem realizar atividades realmente inovadores com seus alunos, com o tempo sentem-se desencorajados em “tentar algo diferente” frente a tantas dificuldades que a própria escola, sem perceber, lhes impõe.

Os pesquisadores americanos David Tyack e Larry Cuban ao investigarem as muitas tentativas do século XXI em mudar a educação chegaram a conclusão que não são as reformas que mudam as escolas, mas a escola que muda a reforma. Eles chamaram esse fenômeno de a “gramática da escola”, que aceita apenas algumas formas de se fazer escola quando muitas outras são possíveis (assim como a gramáticas de uma língua aceita somente certas formas de organizar as palavras).

Tentativas de reforma como os laboratórios de informática falham ao enfrentar essa “gramática da escola”, e facilmente perdem o foco do real objetivo de qualquer reforma: melhorar a qualidade do aprendizado do aluno. Centra-se todo o esforço em mudar o ensino do professor que se ignoram outras ações possíveis para se atingir a criança.

A ideia de permitir que os alunos levem o laptop para casa busca exatamente permitir outras formas de desenvolver cognitivamente as crianças sem jogar todas as responsabilidades sobre o professor. É dar autonomia para as crianças gerenciarem parte de sua própria aprendizagem podendo usufruir de tantas outras formas de aprender e se expressar que a cultura digital hoje nos traz. Além disso, torna-se possível envolver nesse processo muitos outros setores da sociedade que também estão preocupados com a educação das crianças, inclusive a própria família. Centros comunitários, museus, bibliotecas e qualquer tipo de instituição de cultura e educação, pode criar programas que utilizem os laptops de formas que também contribuam no desenvolvimento da criança, mas que as escolas jamais poderiam.

Além disso, cria-se um instrumento para evitar o pior cenário possível em um projeto de tecnologia na educação, que é deixar os laptops sem uso. Muitos dos laboratórios instalados em todo o Brasil, foram sub-utilizados devido a todo o tipo de problemas,  desde burocracia, até mesmo falta de compreensão de diversos profissionais da educação.

Todos reconhecem que o professor é uma parte fundamental do processo, e quando um bom professor tem acesso a um recurso pedagógico poderoso como o computador, as crianças “explodem” em criatividade de aprendizado. Mas assim como qualquer profissão, também existem professores e gestores que não são bons naquilo que fazem, e são necessárias formas de minimizar os impactos negativos nessa situação.

Investir na capacitação do professor, deve ser  parte integrante de qualquer projeto de laptops na escola e é fator necessário para o sucesso do projeto. Entretanto, apenas capacitar não é o suficiente. A proposta de 1 laptop por criança objetiva uma mudança de cultura sobre o papel da tecnologia na aprendizagem que vai muito além do professor e da escola. É um projeto sobre a mudança de como a criança se relaciona com sua própria capacidade de aprender e criar, de como ela se vê no mundo como um sujeito com suas próprias ideias, capaz de conectar-se com outros para compartilhar e se desenvolver. É uma proposta de fornecer para as crianças as melhores ferramentas que o ser humano já desenvolveu para esse fim, os computadores, de forma elas possam fazer parte das mudanças nas formas de ser e viver que tem trazido prosperidade em muitas partes do mundo.

Mais importante que o simples acesso a informação, é a oportunidade de um novo tipo de educação que a saturação das escolas com tecnologia abre. Apesar do Brasil estar obtendo resultados cada vez melhores nas provas educacionais como o PISA, isso não significa que estamos desenvolvendo nas nossas crianças as habilidades que elas precisarão para o futuro. Esse tipo de avaliação internacional, apesar de útil, está amarrado a um modelo de educação do passado, onde as tecnologias dominantes são papel e lápis. Precisamos pensar que qualidade na educação é preparar as crianças de hoje para o mundo de amanhã. Mundo este que não sabemos como será, mas certamente computadores e a capacidade de aprender e refletir por meio deles certamente serão extremamente importantes.

Notas:

  1. Esse é um texto que escrevi em 2010 com uma perspectiva pessoal sobre programas de 1 para 1
  2. Muitas das idéias contidas no texto, incluindo o  título do documento, vêm do meu trabalho e discussões com o Prof. David Cavallo

 

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