JBittencourt's Blog

Ambientes e Plataformas Virtuais de Aprendizagem

by on Jun.01, 2006, under Português, Reflexões

Ontem estava dando uma organizada no meu HD e re-encontrei meu projeto de dissertação. Fiquei dando uma lida nele (lamentando a ingênuidade de minhas idéias) até que encontrei esse trecho, o qual não inseri na dissertação. Achei bem interessante, e decidi publicar aqui com algumas modificações. Penso que é importante pensarmos sobre a diferenciação que fiz abaixo, pois era algo que sempre ouvia do pessoal do LEC, principalmente da Rosane. Talvez pudessemos adotá-la nos nossos textos sobre o AMADIS a partir de agora.

Ambientes e plataformas virtuais de aprendizagem

Esse pequeno capítulo tem como objetivo definir dois termos distintos que muitas vezes são utilizados como sinônimos: plataforma e ambiente virtual de aprendizagem.

O termo Ambiente Virtual de Aprendizagem, AVA, possui diversas definições, cada qual privilegiando um de seus diferentes aspectos. Porém, encontro naquela feita por Débora Maçada, uma construção mais próxima de um referêncial teórico construtivista.

“O ambiente virtual (digital) de aprendizagem é um sistema cognitivo que se constrói na interação entre sujeitos-sujeitos e sujeitos-objetos, transformam-se na medida em que as interações vão ocorrendo, que os sujeitos entram em atividade cognitiva. (…) Não existem fronteiras rígidas do que é meio, objeto e sujeito, pois um ambiente virtual de aprendizagem, sob a perspectiva construtivista, se constitui sobretudo pelas relações que nele ocorrem.” [Maçada 2001, pág. 44]

No trecho transcrito acima, define-se a característica principal de um ambiente virtual de aprendizagem, que é o estabelecimento das relações entre os diversos sujeitos que nele “habitam”. Esse processo dinâmico de estabelecimento de relações tem um aspecto estrutural, uma forma de organização que permite a Maçada defini-lo como um sistema cognitivo. Nesse sistema, cada sujeito recria o próprio ambiente a partir de suas interações com os outros e com o próprio ambiente, “nem somente individual, nem coletivo, mas essencialmente construído” [Maçada 2001, pág. 43].

Sendo assim, um AVA não pode ser definido apenas pela soma de suas partes, mas também pela dinâmica de suas relações.  Esse aspecto dinâmico é que define um AVA, pois a medida em que os sujeitos interagem entre si ou com o software mudam todo que constitui aquele ambiente. Mas, apesar do movimento, ele continua possuindo uma identidade.

Maçada também problematiza o significado dado à palavra “virtual”. Em sua visão, existe uma dicotomia no senso comum que define virtual em oposição ao real, ou seja, como não-real. Para tanto, ela trabalha com a relação Atual x Virtual trazida de Pierre Lévy [Lévy 1996], em que o atual é entendido como a criação sobre a virtualidade que uma problemática oferece. Nessa visão, um AVA seria um ambiente que possui uma virtualidade de novas aprendizagens para os sujeitos que a ele se integram.

Mas essa definição de virtual deixa em aberto o aspecto da relação tecnológica de um AVA, pois qualquer ambiente educacional, possui uma virtualidade de aprendizagens por mais restrita que ela seja. Ao defendender que as tecnologias digitais ampliam o campo dos possíveis de um virtualidade, Maçada utiliza o termo digital como a perspectiva do virtual ligada à tecnologia, ou seja, que define que o ambiente está localizado nos sistemas computacionais, e não no mundo físico.

Sobre essa perspectiva não existe dicotomia entre o termo virtual e o real, pois esse último é entendido em seu significado ontológico, e não como sinônimo do universo físico. Isso pode ser exemplificado pela trama do filme “Matrix”, em que o virtual (entendido como um universo criado pelos computadores) era o real, na medida que esse era construído pelos próprios sujeitos em interação com o que pensavam ser físico, mas na realidade era uma deformação dos sentidos.

Dentro dessa contexto, é que surge o termo plataforma virtual de aprendizagem, como sendo osoftware, ou o conjunto deles, que possibilitam o surgimento de um ambiente. Essa distinção é necessária, pois, como já foi dito, não podemos reduzir um AVA à sua parte computacional. Entretanto, esta faz parte do ambiente e ajuda a constituí-lo. O termo “plataforma” é muito comum na informática, onde utiliza-se plataforma de software para referir-se aos sistemas computacionais onde um outro programa está sendo executado. Por isso, ao se utilizar o termo plataforma dentro da informática, freqüentemente se estará falando de um sistema operacional, pois esse é base funcional para vários outros softwares.

Mas isso não quer dizer que qualquer plataforma seja fator suficiente para o surgimento de um determinado AVA, como muitas vezes os sujeitos são levados a acreditar quando se atribuem ao primeiro características do segundo. Por exemplo, nenhuma plataforma é cooperativa, ela pode, sim, oferecer ferramentas que favoreçam a cooperação, as quais podem ou não serem utilizadas. De forma análoga, um AVA pode ser cooperativo, mesmo que a plataforma em que ele está construído não possua ferramentas para tal.

Um outro ponto importante a definir, é que uma plataforma pode não ser um software especialmente projetado para suportar um AVA, como atualmente é muito comum. Um AVA pode surgir de ferramentas simples, como uma lista de e-mails ou um fórum. Nesse caso, ambas as ferramentas seriam plataformas para esse ambiente.

MAÇADA, D. L. Rede virtual de aprendizagem : interação em uma ecologia digital. Tese (Doutorado) — Universidade Federal do Rio Grande do Sul – Programa de Pós-Graduação em Informática na Educação, Porto Alegre – RS – Brasil, 2001.
LÉVY, P. O que é o Virtual? São Paulo: Editora 34, 1996.

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