JBittencourt's Blog

Archive for February, 2006

O que é Intuição?

by on Feb.15, 2006, under Educação, Português, Reflexões

Hoje tivemos nossa segunda reunião do Grupo de estudos do projeto REDIN. Mais do que na semana passada, nesta manhã acredito que a discussão foi muito interessante. O Mario Fontanive apresentou sua dissertação de mestrado entitulada “A mão e o número: Sobre a possibilidade do exercício da intuição nas interfaces tridimensionais”.

O texto que o Mario leu, levantou uma série de questões interessantes. Particularmente, o tópico que mais me interessou tem a ver com a “Intuição”. Já fazem alguns anos que procuro uma resposta para a pergunta “O que é intuição?”. Essa pergunta surgiu quando comecei a dedicar-me ao estudos das interfaces de computador na disciplina de Interação Humano Computador – IHC. Essa área das Ciências da Computação, é extremamente complexa na medida em que inbrica conhecimentos de várias domínios do conhecimento humano. Uma definição formal de IHC pode ser encontrada em HEWETT et al, 2002:

Human-computer interaction is a discipline concerned with the
design, evaluation and implementation of interactive computing
systems for human use and with the study of major phenomena
surrounding them.

Essa definição, apesar de útil é muito ampla. Na prática, é comum ouvirmos que o objetivo de IHC é aumentar a usabilidade dos softwares ou “tornar as interfaces mais intuitivas”. Entretanto, sempre me questionei sobre o que realmente sigfnica esse processo de “intuitivisação” das interfaces. O que diferencia uma interface intuitiva de uma outra não-intuitiva. Nas minha leituras, principalmente do trabalho de Donald Normam, a idéia de intuição parece estar ligada sempre a de uma “apreenção imediata”, a qual não pressupõe uma fase a apropriação da interface por parte do usuário. Para Normam, o computador deveria ser invisível, ou seja, o sujeito não deveria se preocupar em como utilizá-lo, mas sim concentrar-se na tarefa que deseja realizar com ele.

Tal idéia sempre me pareceu estranha, pois parece ser uma compreensão sem a necessidade de aprendizagem. Como se todo e qualquer conhecimento pudesse ser representado no formato de uma ilustração a qual fosse apreendida pela percepção do sujeito imediatamente. Segundo vários autores, como McLuhan e Levy, primeiro forjamos nossas ferramentas e depois elas nos moldam. Em outras palavras, não podemos esperar que o computador seja um objeto invisível para a execução de uma tarefa, pois a própria tarefa que está sendo realizada não faria sentido sem o computador.
Esta passagem de Lino de Macedo fala um pouco sobre isso em um contexto totalmente distinto:

Ora, há uma idéia de que os objetos sociais ou artificiais têm
plasticidade, benevolência ou complacência quase infinitas.
Acreditamos que é possível oferecer um objeto cultural
subordinável ou redutível àquilo que pensamos que a criança é.
[…] A produção de cartilhas chegou a um tal reducionismo, ou
simplificação que, para ensinar famílias silábicas, por exemplo,
autores criaram frases que seriam totalmente absurdas em nossa
realidade. […] Por um lado é exigido da criança que escreva
ortograficamente bem, independente de seu nível. Por outro, é
exigido que os textos didáticos sejam sempre acessíveis à (ou
complacentes com à) criança. (MACEDO, 1994, pág. 66.)

Da mesma forma como aconteceu com as cartilhas, existe uma idéia, ligada a uma epistemologia empirista, de que uma interface possuí umas plasticidade infinita. De que qualquer interface pode ser reformulada de tal forma que se torne mais intuitiva e fácil de utilizar, como se a complexidade de todo e qualquer conhecimento pudesse ser resolvida por meio de uma “apresentação adequada”.

Não quero com essa problematização, dimunuir a importância de criarmos interfaces melhores, mas sim questionar o que é usabilidade e quais são seus limites. Até que ponto podemos tornar uma interface mais compreensível? Onde o objeto interface resiste aos nossos esforços em torná-la transparente e nos obriga a entender a entende-lá não como um produto, mas sim como um processo translucido e não invisível?

Talvez aqui esteja um ponto importante: qual o papel da tupla ação x compreensão dentro da nossa compreensão de usabilidade? Acredito que o conceito de intuição não seja suficiente para representar o problema de melhorar as formas de interação entre o homem e a máquina, mas com certeza faz parte da resposta. Isso nos tráz novamente a questão inicial: o que é intuição?

O trabalho do Mário me mostrou que Bergson tem algumas contribuições interessantes sobre esse assunto. Acredito que nas próximas semanas estaremos construindo no Wiki do REDIN uma discussão interessante sobre o assunto.

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