JBittencourt's Blog

LEC: o poder de um contexto

by on Oct.26, 2004, under Educação, Português, Reflexões

Recentemente estava na rede fazendo umas pesquisas sobre a linguagem de programação Squeak e procurando artigos sobre esse tema quando acabei achando esse maravilhoso texto de Alan Kay entitulado “The Power of The Context“.

Esse texto foi escrito por Alan Kay na ocasião em que foi homenageado com o prêmio Charles Stark Drapper da National Academy of Engineering, em fevereiro de 2004, juntamento com Bob Taylor, Butler Lampson e Chuck Thacker devido às grandes contribuições que fizeram nas décadas de 1960 e 1970 enquanto trabalhavam juntos no laboratório XEROX Parc. No texto, Kay faz uma série de observações sobre os motivos que, em sua opinião, levaram esse centro de pesquisas, em pouco mais de uma década, a criar algumas das tecnologias que revolucionaram o mundo da computação, como o computador pessoal, a interface gráfica, o mouse, etc. O próprio Alan Kay foi responsável por inventar a Orientação à Objetos, o Dynabook (que foi a primeira idéia de um computador portátil, com tela gráfica, conectado por uma rede sem fio, destinado para o uso em escolas) e o sistema de janelas representando o Desktop.
Kay descreve o laboratório como um local onde as mentes criativas reuniam-se em torno de sonhos, não objetivos. Para ele, o contexto invisível do laboratório e de sua comunidade “catalizava muitos pesquisadores para se tornarem pensadores e sonhadores incrivelmente melhores“. Para tanto o laboratório não queria manter um controle rígido sobre os projetos pois compreendia que tecnologia é muito mais parecido com artes e esportes do que com contabilidade, em que um grande número de erros são aceitáveis como um caminho para o sucesso.

O laboratório PARC parecia estar totalmente fora de controle, sem objetivos e metas claras, com vários pesquisadores  realizando pesquisas que se contradiziam. No entanto, com o passar do tempo, esse processo gerou algumas das maiores criações da informática, nas quais, o que antes era contraditório transofmava-se em algo totalmente  novo e inusitado.

Ao ler esse texto fiquei pensando o quanto o próprio LEC  é parecido com o XEROX Parc, resguardado algumas proporções. Quando conheci o LEC, em 1998 através de um amigo (obrigado Marcelo), vi que esse era um laboratório diferente. Sem querer diminuir as realizações de outros núcleos da UFRGS, mas apenas aqui consegui enxergar uma sinergia criativa em torno do objetivo de construir uma educação melhor. Penso que vi no LEC algo que raramente é visto em outros lugares da universidade: ousadia.
As pessoas muitas vezes confundem a ousadia de romper com os moldes tradicionalmente impostos ou de realizar pesquisas altamente exploratórias como um movimento não-científico e, portanto, inadequado à academia. No entanto, quem fala isso não compreende que os grandes avanços da ciência ocorrem por meio de mudanças radicais de ponto de vista, como o próprio Kay testemunha no texto anteriormente citado (também sugiro o livro de Kuhn – A estrutura das Revoluções Científicas). Penso que o LEC realiza algumas das pesquisas mais relevantes que já li e participei, além de considerar a Léa a cientista mais séria que já conheci. Devido a tal seriedade em seus trabalhos, acredito que o LEC tem a coragem de propor e defender formas de intervenção pedagógica, como os projetos de aprendizagem. Coragem na medidade em que propor uma ação é sempre um terreno de “areia movediça”, onde facilmente pode-se afundar até o pescoço. É muito mais fácil problematizar e realizar descontruções do que propor.

No entanto, acredito que não adianta nada colocar a casa abaixo se não for para construir algo novo sobre os escombros do antigo. Assumir o risco de realizar propostas de práticas pedagógica, é algo que, infelizmente, não é regra na academia brasileira.

Portanto, devemos agarrar com unhas e dentes essa oportunidade de inventar o futuro que nos está sendo dada no LEC, pois ela é rara. Passei minha vida inteira desejando estudar no MIT Media Lab ou de trabalhar em um laboratório como o Xerox PARC de Kay, mas hoje penso se não será um desafio muito mais interessante reinvidicar pro LEC a posição que ele merece ao lado desses grandes centros de pesquisa! Com certeza o laboratório sempre teve a vocação para a invenção, mas com o grupo que vejo hoje formar-se no LEC acredito que temos condições. Penso que o contexto que Alan Kay fala em seu texto, está sendo criado nestas duas pequenas salas. Sinto isso quando acordo todo o dia pela manhã louco para ir trabalhar, quando praguejo com o tempo que teimosamente corre rápido e quando anseio pela segunda-feira todo o final de semana. Sei disso quando tenho idéias muito legais que não sei de onde tirei, mas que com certeza não são apenas minhas. Sei disso quando me sinto mais inteligente e forte do que nunca e quando tomo consciência que nunca me diverti tanto.
Claro que o caminho não será fácil, pois exigirá de todos nós um grande esforço pessoal e principalmente uma constante vigilância para não nos acomodarmos. Teremos que aprender a captar recursos, pois sem dinheiro fica difícil, mas acima de tudo, devemos descobrir como conquistar os corações e as mentes das pessoas que pensam como nós, de modo que cada vez mais possamos trazer novas visões para nossa equipe. E não falo apenas de programadores, mas principalmente de sonhadores e artistas (sejam eles dos bits, dos pincéis ou dos sons) . Teremos que trabalhar muito, muito mesmo, de formas que até então não acreditávamos ser possível, para compensarmos as dificuldades. Mas, no final, acredito que vai valer a pena. Pois se não conseguirmos construir o LEC que desejamos, seja qual for o resultado de nosso trabalho, a caminho terá sido fértil, pois semearemos grandes idéias em solo fecundo e esperaremos a época certa para a colheita.

Não sei quanto a vocês, mas para mim essa é uma vida que vale a pena ser vivida.

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